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À sombra de um gigante


Como em toda boa história de herói, o trajeto do protagonista do desconhecimento ao ápice da glória não é um percurso linear, e muito menos ausente de obstáculos. Há aqueles que duvidam, que ridicularizam, que apontam o dedo na cara e dizem que o sonho é grande demais para caber na sua limitada realidade. A tendência, entretanto, é que tais vozes diminuam em quantidade, ou que fiquem ao menos mais tímidas, conforme a ascensão do personagem principal.

Não é o caso de Cristiano Ronaldo. Não porque o português não viveu sua parcela significativa de dificuldades — infância pobre, filho de um roupeiro alcoólatra e uma funcionária doméstica, precisando atravessar sozinho aos 11 anos o mar que separava a isolada Ilha da Madeira de seus sonhos de virar jogador na capital, treinando com meninos mais velhos, mais fortes e mais experientes. Mas, porque o atacante, eleito cinco vezes o melhor jogador do planeta e detentor da artilharia do clube mais vitorioso da história, continua precisando provar repetidamente que merece os postos que ocupa.

Com a ampliação dos holofotes, se multiplicou também a contestação. Contrariando a fantasia da consagração absoluta que decreta um final feliz, aos 33 anos de idade e com uma carreira que define e até excede os parâmetros de sucesso, Cristiano segue alvo de uma legião que ainda insiste em vilãnizá-lo a cada oportunidade que encontra.

Claro que querer agradar a todos é utopia. Aliás, da personalidade às excentricidades, tudo no português sugere que essa não é nem nunca foi a intenção. Mas a mensagem sempre foi clara: gostando ou não, você vai ter que respeitar. Por essas e outras, a má vontade em reconhecer seus feitos, propagada por muitos no meio do futebol, de profissionais a torcedores do esporte, nunca lhe caíram bem. E durante muito tempo, não havia título coletivo, consagração individual ou recorde batido capaz de saciar a sede de Cristiano de provar a um por um de seus contestadores que estavam errados.

Essa luta se transmitiu também aos seus admiradores. Com o alcance e a dedicação de um exército, espalhar a palavra de nossa santidade Cristiano Ronaldo a fim de converter infiéis virou nossa missão divina. Aqueles que não reconheciam a trajetória e os exaustivos esforços do português para chegar ao patamar que estava não eram dignos da nossa consideração, e quem apontasse Lionel Messi como superior virava inimigo mortal instantâneo. À sombra do gigante que se tornava Cristiano Ronaldo, seguíamos, iluminados pelo seu brilhantismo que ofuscava a barulhenta oposição.

Foram anos intensos. As intrigas que combatemos variavam de rumores sobre uma saída a cada santo final de temporada por insatisfação salarial a supostas exigências de um jogador mimado que só pensava em si. Individualista, egoísta, tudo menos Madridista. As implicâncias focavam tanto em gestos de comemorações exageradas quanto na falta das próprias quando um companheiro marcava o gol. É a cor do cabelo, o corte, a altura dos shorts. Chuva de críticas, de rendimento à vestiário e extracampo, independente de ser inverno ou verão.

Também surgiu a questão de poder ou não se olhar no telão, sobre ser ou não ser cai-cai, e sobre Cristiano sequer merecer alguma coisa do que conquistou porque “ele só trabalha duro, mas não tem talento natural”. Garanto que diversas vezes nos perguntamos se ele deveria começar a errar cobranças de pênalti para não constranger ninguém, e também porque a pauta da sua preferência sexual era tão importante para o mundo se meter e discutir.

Felizmente, com o passar dos anos chega também a maturidade. Para o Cristiano e para nós. O esforço recorrente e muitas vezes descomunal que faziam para diminuir seus feitos, desprezar suas contribuições ou rebaixá-lo a qualquer coisa senão um jogador genial foram comoventes. Mas foram também grande parte do que deu sentido à uma época de afirmação do português no futebol europeu, depois na Espanha, e por fim em um duopólio nunca visto antes, dele e de um argentino que dominaram uma década no cume da elite do futebol. A afirmação de Cristiano Ronaldo, por fim decidiu ele e enxergamos nós, não depende da consagração absoluta. As vozes que o questionam seguem e seguirão falando, ainda que sem dizer nada.

Há alguns anos, gradualmente, a perspectiva mudou. O debate se ele é ou não hoje, foi ou não há um ano, e será ou não daqui a uma temporada, incontestavelmente o melhor do mundo, se tornou irrelevante. Para ele e para muitos dos que o acompanham, as mesmas intrigas que o seguem desde o início da carreira não passam mais de ruído. Pautas debatidas ao ponto de exaustão. E aos que ainda não se renderam pelo menos às qualidades futebolísticas do português, deixamos de oferecer o serviço de purgatório. As portas seguem abertas a quem quiser entrar. Apesar da relutância inicial, tanto Cristiano como nós percebemos que não só não se pode salvar a todos, como também que não precisa.

Os anos dourados estão se encaminhando para uma eminente mudança de tempo verbal. Apesar de Cristiano continuar se apresentando rotineiramente no Santiago Bernabéu e ao redor da Espanha por pelo menos mais alguns anos, diante de gregos e troianos, o ciclo é outro. Seu maior legado não vai ser apenas o produto final — o número de gols, os recordes, os títulos — mas o registro dessa trajetória que, entre os muitos altos e muitos baixos, compôs as lembranças de uma era. E o lugar que Cristiano Ronaldo ocupa na história é a escritura para inspirar gerações. Amém.
À sombra de um gigante À sombra de um gigante Publicadas por Giovanna Zeloni em fevereiro 07, 2018 Mais 5